
O pós Senna: Rubens "Rubinho" Barrichello
Rubens Barrichello é mais um paulista a chegar ao auge do automobilismo. Nascido no ano do primeiro campeonato de Fittipaldi na F1 (1972), Rubinho - como é conhecido - dirigiu um kart pela primeira vez já aos seis anos. Com oito, já era pentacampeão brasileiro e paulista (A TRAJETÓRIA, RUBENS BARRICHELLO).
A transição do kart para carros aconteceu em 1989, quando o piloto entrou na Fórmula Ford. De cara, já venceu sua primeira corrida e terminou o campeonato em terceiro lugar. Rubinho permaneceu por mais duas temporadas na categoria, e em 1991, partiu para a Fórmula 3 inglesa a convite da West Surrey Racing, onde tornou-se o campeão mais novo da competição na época. Disputou a Fórmula 3000 com a IL Barone Rampante no ano seguinte, e apesar das dificuldades do carro, inferior em relação aos competidores, o brasileiro finalizou o ano como terceiro melhor piloto (A TRAJETÓRIA, RUBENS BARRICHELLO).
No dia 14 de março de 1993, Barrichello faz sua estreia na Fórmula 1 pela equipe irlandesa Jordan no Grande Prêmio da África do Sul. A temporada foi de mais baixos que altos, com a escuderia finalizando o campeonato na última colocação. Entretanto, sua grande atuação no Grande Prêmio da Europa, quando saltou da décima-segunda para quarta posição logo na primeira volta, impressionou todo o paddock (GE, 2022).
Os holofotes caíram realmente em Rubinho no seu fatídico acidente em Ímola, no ano seguinte. Na vice-liderança do campeonato, o brasileirou bateu violentamente durante a primeira classificação na sexta-feira, batendo sua Jordan na barreira de pneus e na grade de proteção, aterrissando na lateral e de cabeça para baixo após duas capotadas. De acordo com Sid Watkins, médico que prestou atendimento ao piloto, o brasileiro estava desacordado, havia engolido a língua e ficou desacordado por vários minutos. Surpreendentemente, Rubinho saiu do hospital já no dia seguinte, e seguiu sem sequelas maiores além do nariz quebrado e o braço machucado para próxima etapa em Mônaco (MOTORSPORT, 2024).
Com a morte trágica de Senna, Rubinho passou a ser o único brasileiro na Fórmula 1 até 1996, seu último ano na Jordan. Foi piloto da Stewart de 1997 à 1999, onde acumulou quatro pódios, incluindo um segundo lugar em Mônaco. A virada de sua carreira veio junto com a virada do século, quando assinou com a Ferrari para ser companheiro de equipe de Michael Schumacher.
E no meio da temporada, no Grande Prêmio da Alemanha, Rubinho teve sua primeira vitória, finalizando o ano na quarta posição do campeonato. O ano de 2001 foi sem vitórias para o brasileiro, que mesmo assim subiu uma posição em relação ao ano passado e terminou em terceiro. Definitivamente, o ano mais marcante de Barrichello na Ferrari foi em 2002.
Dia 12 de maio, Grande Prêmio da Áustria. Rubinho foi o primeiro em todos os treinos livres, conquistou a pole-position, e liderava de ponta a ponta a corrida. Na última volta, a Ferrari ordena que ele deixe Schumacher passar, e relutantemente, o brasileiro obedece metros antes da linha de chegada. O mesmo havia acontecido na corrida do ano anterior, porém, Barrichello estava na segunda posição. Ele acreditava que, caso estivesse liderando, o pedido nunca viria (GE, 2022); Na época, a comunicação via rádio entre piloto e equipe não era transmitida no autódromo ou na televisão.
Portanto, a manobra pegou todos de surpresa, originando a famosa frase de Cléber Machado, que narrava a corrida na transmissão brasileira: “Hoje não! Hoje não! Hoje sim? Hoje sim…” (GE, 2022). O som dos motores foi substituído pelas vaias da arquibancada, e o caso explodiu na imprensa mundial. No Brasil, chegou a ser capa da editoria de esportes do Estadão, que chamou de “indignação mundial”.
Rubinho permaneceu na Ferrari até 2005, somando duas vitórias, vinte pódios, dezesseis pole-positions e cinco títulos de construtores. Assinou com a Honda, onde passou por dificuldades até a venda da equipe por 1 dólar para Ross Brawn em 2009, que fora diretor técnico da Ferrari durante sua estadia na equipe.
Foram duas vitórias para o brasileiro naquele ano, que terminou o campeonato na terceira posição. Em 2010, Barrichello realizou um “sonho” (A TRAJETÓRIA, RUBENS BARRICHELLO) e partiu para a Williams, finalizando sua carreira na Fórmula 1 na equipe britânica em 2012.

Capa da coluna esportiva do Estadão destacando a polêmica do Grande Prêmio da Áustria de 2002 - Acervo Estadão: Página 44 da edição de 14 de maio de 2002
Rubens Barrichello, o anti-herói
Christopher Vogel classifica em “A jornada do escritor” o anti-herói não como o oposto do herói, mas como “alguém que pode ser um marginal ou um vilão, do ponto de vista da sociedade, mas com quem a plateia se solidariza”. O autor define ainda dois tipos de anti-herói, o ferido, o solitário que rejeita ou é rejeitado pela sociedade, e o trágico, que jamais conseguem ultrapassar seus demônios íntimos, e acabam sendo derrotados e destruídos por eles.
Quatro meses após o falecimento de Senna, o Estadão publica o especial “O garoto que saiu do kart para brilhar na F-1”, uma página inteira da seção esportiva dedicada à Rubens Barrichello. O brasileiro estava em seu segundo ano na Fórmula 1, e seu maior momento de destaque até então foi o grave acidente sofrido em Ímola, um dia antes da morte do conterrâneo. Na data da reportagem, Rubinho ainda não tinha conquistado pódios ou sua primeira vitória.
Dois dias antes da abertura da temporada de 1995, o jornal publica o especial “Schumacher, o inimigo nº 1”. Mesmo que Rubinho ainda fosse relativamente chegado ao esporte, e sua Jordan fosse evidentemente inferior à de seus adversários, seu nome foi colocado como um dos que poderia derrotar o alemão, favorito no campeonato.

Especial da editoria esportiva do Estadão “Schumacher, o inimigo nº1” - Acervo Estadão: Página 31 da edição de 24 de março de 1995
Como mencionado anteriormente, para que haja um herói, é necessário que exista um vilão. Nota-se uma tentativa do Estadão de colocar Rubinho nesta posição heróica, para preencher o vazio deixado pela ausência de Senna. Consequentemente, Schumacher seria o vilão, ou o “inimigo nº 1”. O próprio jornal reconhece a pressão que é colocada no brasileiro para substituir o ídolo, ao mesmo tempo que persiste em sua tentativa:

Trecho da sessão Extra do Estadão “Barrichello precisa livrar-se da pressão de substituir Senna” - Acervo Estadão: Página 56 da edição de 08 de março de 1997
Apesar da já existente “decepção” dos leitores com Rubinho, o Estadão segue apoiando o brasileiro, especialmente com a notícia de sua mudança para a Ferrari em 2000. Um dia antes da corrida em Interlagos, a segunda da temporada, o jornalista Luiz Carlos Ramos escreve “A torcida bota fé em Rubinho”.
Borelli afirma em “Cobertura Midiática De Acontecimentos Esportivos: Uma Breve Revisão De Estudos” que a existência de heróis no esporte é o que atrai os torcedores para o evento. Talvez por isso, a insistência do Estadão de fazer Rubinho um herói nacional, visto que, o Brasil viveu décadas de glória na Fórmula 1 desde os anos 1970, e portanto precisava de uma esperança para o futuro.
O Grande Prêmio da Áustria de 2002 não foi somente um ponto de virada na carreira do brasileiro, mas também na maneira em que o Estadão passou a tratar o piloto. Após a polêmica causada pela Ferrari, o Estadão publicou várias críticas à equipe e ao adversário Schumacher, como mostrado previamente na Imagem 3 “Ferrari anuncia nova marmelada para Mônaco”. O jornal criticou duramente os responsáveis, chegando a apelidar o alemão de “anti-herói” e Jean Todt de “manipulador”.

Abertura da seção esportiva do Estadão “Schumacher, anti-herói até na Alemanha” - Acervo Estadão: Página 56 da edição de 08 de março de 1997
"A rivalidade torna-se um elemento crucial da competição de esportes, não só pelo duelo como atração, pela jornada e construção dos heróis e dos vitoriosos, mas pelo atrativo dos vilões e dos fracassados que também despertam o interesse do público. E os limites que separam os vencedores ou perdedores, ou os heróis dos vilões são extremamente tênues e dependentes do último resultado. Afinal, tanto a vitória quanto a derrota podem ter seu efeito mais que redobrado dependendo do tipo de significados com os quais revestimos um jogo."
- Vasconcelos, 2017.
Entretanto, como o próprio Estadão afirmou, logo ficaria claro que Rubinho é na verdade, Rubens Barrichello, não Ayrton Senna. Apesar de estar no carro mais dominante do grid, o brasileiro não era considerado “igual” ao companheiro de equipe e muito menos tratado da mesma maneira, como Senna era com Prost na McLaren. Schumacher era o primeiro piloto da Ferrari, e não foi dada a liberdade para Rubinho de disputar essa posição. Ele era o “fiel escudeiro”.
Desta forma, acontecimentos como o da Áustria em 2002, passaram a ser comuns na equipe italiana, e com isso, as tentativas do Estadão de colocar o brasileiro como sucessor de Senna foram diminuindo cada vez mais. O jornal, inclusive, passou a abrir espaço para os leitores fazerem suas críticas e comentarem suas decepções acerca do piloto.

Trecho do Fórum dos Leitores do Estadão sobre a Fórmula 1 - Acervo Estadão: Página 03 da edição de 15 de outubro de 2003

Nota do leitor sobre Rubens Barrichello - Acervo Estadão: Página 03 da edição de 24 de maio de 2005
Mesmo nos momentos, que passaram a ser raros, em que o Estadão elogia Barrichello, este é feito em comparação com Senna, como visto na reportagem de Lívio Oricchio sobre a vitória do brasileiro em Silverstone em 2003, que recebeu o título: “Rubinho em dia de Ayrton Senna”:

Capa da editoria de Esportes do Estadão “Rubinho em dia de Ayrton Senna” - Acervo Estadão: Página 36 da edição de 21 de maio de 2003
Em 8 de abril de 2003, o Estadão publicou a reportagem “Ferrari tinha a obrigação de fazer a conta certa”, abordando o abandono de Barrichello no GP do Brasil devido à falta de combustível. No bloco “Um Anti-Herói Brasileiro”, escrito por Daniel Piza, o próprio jornal justifica porque Rubinho se enquadra no arquétipo do anti-herói.
"O homem que amamos odiar é quase sempre, também, aquele que adoraríamos amar. Rubens Barrichello é um desses homens. Há vários contornos em sua história que sugerem a figura de um anti-herói, alguém sem os dotes normalmente atribuídos ao heroísmo e que, no entanto, atrai torcida justamente por isso. Parecem faltar muitas coisas para que ele triunfe; ao mesmo tempo, tal é o motivo por que seu triunfo é, inconscientemente ou não, tão esperado. A primeira suposta “deficiência” de Barrichello, é claro, não ser Ayrton Senna (1960-1994)".
- Piza, Estadão, 2003.
Portanto, após as análises das reportagens trazidas neste capítulo, incluindo o trecho acima, podemos classificar Rubens Barrichello como o anti-herói.