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O vencedor leva tudo

Ao longo desta pesquisa, foi possível perceber como a imprensa ajuda a construir as figuras heróicas da Fórmula 1, mesmo que não intencionalmente. Como destacado por Viviane Borelli, a mídia por si só não cria o herói, porém ao reforçar certos acontecimentos e falas e atribuir notas de desempenho, ela exerce um papel fundamental em sustentar ou derrubar tais arquétipos. 

Quando Ayrton Senna entrou na Fórmula 1 em 1984, Emerson Fittipaldi já havia saído da categoria há quatro anos, e Nelson Piquet era seu último campeão. Imagina-se, portanto, que haveria uma pressão por parte da imprensa para que Senna fosse tão bem sucedido quanto seus antecessores, e que suas atitudes e resultados seriam constantemente comparados. 

E houve. Porém, Senna era o favorecido. Como mostrado nas imagens 15 e 17, mesmo com Piquet sendo um tricampeão, e Ayrton ainda sem conquistar nenhum título, seu talento nas pistas, carisma e determinação o colocaram em uma posição superior à do seu compatriota. Desta forma, observa-se que Senna já preenchia os requisitos do herói descritos por Ronaldo Helal, e por isso tinha seus atos positivos superdimensionados pelo Estadão, enquanto seus erros eram suprimidos. 

Mesmo assim, ironicamente, o próprio Senna não se considerava merecedor de tal heroísmo:

“Para ser honesto, não me sinto o maior ídolo brasileiro. Não me sinto uma pessoa tão importante assim para merecer uma festa durante uma noite toda no Brasil.”
 
- Ayrton Senna, após conquistar o tricampeonato na Fórmula 1 em 1991. 

Consequentemente, entende-se o que ocorreu com Rubens Barrichello. Tal como Senna, o Rubinho de 1994 também poderia se enquadrar nas características do herói de Helal. Seu acidente grave no sábado e a perda do ídolo Senna em Ímola no dia seguinte representariam o passado difícil do “herói”, sua rápida recuperação e determinação em seguir em frente a vocação extraordinária, e por fim, sua personalidade carismática. 

Assim, é possível compreender porque quase imediatamente após a perda de Senna, o Estadão tentou colocar Barrichello como o novo herói nacional. Em entrevista para a Jovem Pan em 2020, Rubinho reconhece que sua carreira teria sido “muito mais tranquila” se Senna tivesse sobrevivido, e fez seu melhor para tentar preencher o vazio deixado por ele:

“A morte dele foi a coisa mais difícil porque a gente estava lidando com o chefe, com alguém que era uma lenda. [...] Quando ele se foi, meu carro não era bom, mas eu quis dizer ‘fiquem tranquilos porque tudo o que eu ganhei na vida, se Deus quiser, logo logo eu vou estar ganhando'. Eu tinha a mais pura certeza de que seria campeão do mundo, mas tudo aconteceu de forma diferente. Ficou um vazio enorme, eu tinha 22 anos.[...] Eu fui colocado (como número um do Brasil). Eu quis, na humildade, mostrar que eu estaria ali tentando o meu melhor. Acho que fui colocado com essa função.”

Contudo, como o próprio jornal reconheceu, Rubinho não era Senna, mas na verdade sua própria pessoa, com uma trajetória na Fórmula 1 diferente do ídolo, presente de outros desafios a serem enfrentados. Se Senna sobrevivesse ao acidente e seguisse com sua carreira até a aposentadoria, tal como ocorreu com seus antecessores, não haveria um papel vacante de herói a ser preenchido, e tal pressão não cairia sobre Barrichello, e ele não seria o anti-herói, rejeitado pela sociedade por não conseguir ultrapassar seus “demônios íntimos”. 

E então, Felipe Massa, que chegou mais perto que Rubinho de ser campeão na Fórmula 1, acabou nunca sendo considerado pelo Estadão, a partir da nossa análise, para preencher o vácuo do papel do herói brasileiro no automobilismo. Pelo contrário, Massa teve uma cobertura significativamente menor no jornal em relação aos antecessores, apesar do diário manter um correspondente especial para a Fórmula 1 durante seus anos. 

Conforme apresentamos na análise da trajetória do piloto, no seu principal ano na categoria, 2008, Massa era destacado apenas por seus erros, mesmo quando acertava. Apesar do imaginário social não necessariamente pensar nele como o antagonista, o “vilão”, sua trajetória é marcada pela principal característica deste arquétipo - a derrota. 

De acordo com o próprio Massa, em entrevista para o ge.globo em 2025, todos os pilotos brasileiros que entrarem na Fórmula 1 vão ter a pressão do “pós-Senna” pelo resultado, onde apenas a vitória interessa. Na visão dele, mesmo quando um piloto alcança o segundo lugar, ele “não é ninguém”:

“ O brasileiro tem aquele negócio, tipo assim: ‘É a vitória que interessa’. E isso é uma pressão muito forte, mas é onde o piloto, ou jogador, sabe que tem que entrar pensando que a vitória é que interessa. E o trabalho, a pressão tem que pesar pouco por aquilo que o piloto quer no fim. Então você tem a pressão, um país que te apoia muito, mas um país que te cobra muito. O Brasil é assim. Sendo brasileiro, você já tem que entrar acostumado com isso. Se não, se isso te pesar quando você está lá competindo, vai te prejudicar. Isso tem que ser algo natural no seu jeito de pensar pra aguentar essa pressão. [...] Às vezes, você não tem o carro pra ganhar, então tem uma cobrança excessiva e você não vai conseguir aquilo, porque o piloto precisa do equipamento. [...] Às vezes, o cara tem que ganhar, se não, não é ninguém.”

Por fim, compreendemos que foi possível assemelhar cada um dos pilotos a um arquétipo, através da pesquisa e análise dos textos do jornal Estadão, comprovando o papel fundamental da imprensa na construção destas narrativas. Assim, entende-se que da mesma forma que a humanidade adapta e renova seus mitos com o passar do tempo, a imprensa faz o mesmo com a Fórmula 1, constantemente coroando e destronando novos heróis a cada temporada.

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