
O pós Senna: Felipe Massa
Enquanto Rubinho passava por seu ano mais conturbado na Fórmula 1, em 2002, outro piloto brasileiro fazia sua estreia na categoria: Felipe Massa. Também paulistano (natural de Botucatu), o piloto nascido em 25 de abril de 1981 (curiosamente, ano do primeiro título de Piquet) teve trajetória similar a seus antecessores - teve sucesso nos campeonatos europeus, como o Campeonato Italiano e o Europeu da Fórmula Renault, e a Fórmula 3000 (AUTOSPORT, 2024).
Estreou pela Sauber no Grande Prêmio da Austrália de 2002, e teve um ano promissor, mas sem grandes resultados, tendo que se contentar com o papel de piloto de testes da Ferrari no ano seguinte. Entretanto, seu bom trabalho não passou despercebido, e Massa foi chamado de volta para a Sauber em 2004. A escuderia italiana não esqueceu do brasileiro, que foi escolhido para ser substituto de Barrichello em 2006.
Conquistou o primeiro pódio no Grande Prêmio da Turquia daquele ano, e a primeira vitória veio na última etapa no Grande Prêmio do Brasil em Interlagos, encerrando um jejum de 19 anos sem vitórias de brasileiros em casa, desde Ayrton Senna em 1993. Com o anúncio da aposentadoria de Schumacher algumas etapas antes, Massa estava prestes a viver seus melhores momentos na Fórmula 1 (AUTOSPORT, 2024).
Em 2007, disputou o campeonato com as McLarens de Fernando Alonso, atual bicampeão, e o novato Lewis Hamilton, além do novo companheiro de equipe e eventual vencedor, Kimi Raikkonen. O carro da Ferrari era mais irregular que dominante, e Massa não conseguiu aproveitar tão bem as oportunidades deixadas pela McLaren, que acabou sendo desclassificada do campeonato de construtores por um escândalo de espionagem, quanto seu colega finlandes, que ganhou o campeonato por um ponto (GE, 2019).
O brasileiro acumulou três vitórias na temporada, e a confiança que poderia ser campeão. E sua maior oportunidade viria já no ano seguinte. Diversos pilotos revezavam a liderança do campeonato em 2008, até Lewis Hamilton se solidificar na primeira posição após o Grande Prêmio da Inglaterra, com Felipe Massa vindo forte em segundo, diminuindo a diferença corrida a corrida (GE, 2023).
A decisão ficaria para a última corrida, logo em Interlagos. Massa precisava vencer, e esperar que Hamilton, com sete pontos de vantagem, ficasse em sexto lugar ou pior. Dessa forma, eles terminaram empatados, porém o campeonato iria para o brasileiro, já que ele somaria uma vitória a mais, o primeiro critério de desempate. E assim foi. Pelo menos, até a última volta, quando o britânico superou Timo Glock, alcançou a quinta colocação, e “tomou” o campeonato para si. Mais uma vez, o campeão venceu por um ponto de diferença.
O piloto brasileiro vem buscando uma maneira de reverter o resultado deste campeonato desde 2023. Isso porque, algumas etapas antes da decisão, em Singapura, o maior escândalo da Fórmula 1, o “crashgate”, aconteceu. Seguindo ordens de Flávio Briatore, chefe de equipe da Renault, Nelson Piquet Jr causou uma batida proposital para ocasionar um safety car que beneficiaria seu companheiro de equipe e eventual vencedor da prova, Fernando Alonso.
Em março de 2023, o antigo chefe da F1, Bernie Ecclestone, revelou que tanto ele quanto o presidente da FIA (Federação Internacional do Automobilismo) na época, Max Mosley, tinham informações suficientes para investigar o crashgate já em 2008, mas não o fizeram para não “manchar a imagem do esporte”. O caso só veio à tona no próximo ano, após apuração do repórter brasileiro Reginaldo Leme (GE, 2023).
Antes da etapa, Hamilton e Massa estavam separados por apenas um ponto. Caso vencesse a corrida, o brasileiro assumiria a liderança. No momento da batida, era Massa que liderava a corrida, porém um erro da Ferrari no pit-stop na sequência acabou com suas chances de vitória. Ou seja, se ‘Nelsinho’ não tivesse batido propositalmente, Massa não teria ido ao box, a Ferrari não teria errado, ele teria saído de Singapura com a vitória e a liderança na pontuação - e portanto, a conquista do campeonato de pilotos, já que com o resultado de Interlagos, ele teria alcançado o cenário necessário para sair na vantagem.
A polêmica acabou se tornando o momento mais marcante da carreira de Massa, que nunca mais conseguiu chegar tão perto de ser campeão na Fórmula 1. Sofreu um grave acidente em 2009, quando uma mola do carro de Barrichello o atingiu, e teve que se ausentar até a temporada seguinte. No seu retorno, perdeu protagonismo dentro da Ferrari para Fernando Alonso, e trocou a equipe italiana pela Williams em 2013.
Em seus anos finais, Massa conquistou quatro pódios e uma pole pela escuderia britânica, protagonizando alguns dos últimos momentos de destaque da equipe naquela década. O brasileiro se aposentou oficialmente em 2017, somando 11 vitórias, 16 poles e 41 pódios (AUTOSPORT, 2024). Por oito anos, Massa foi o último brasileiro a pilotar na Fórmula 1, até a estreia de Gabriel Bortoleto, também pela Sauber, em 2025.
Felipe Massa, o antagonista
Classificando Senna como o herói, e Rubinho o anti-herói, resta a posição do antagonista, o vilão, para Felipe Massa. Porém, é importante ponderar: ele se encaixa neste arquétipo? Fábio Vasconcelos em “Jornalismo esportivo: como a mídia transforma atletas em heróis e vilões” traz importantes reflexões para esta análise.
Relembrando brevemente sua trajetória, Massa estreou na Fórmula 1 no mesmo ano do escândalo da Ferrari na Áustria, em 2002, pela Sauber, que estava longe de disputar o campeonato com a escuderia italiana. No ano seguinte, o brasileiro chegou a ser o piloto de testes da Ferrari, e três anos depois, substituiu Rubinho na equipe.

Capa da coluna esportiva do Estadão destacando a polêmica do Grande Prêmio da Áustria de 2002 - Acervo Estadão: Página 44 da edição de 14 de maio de 2002
Porém, como mencionado anteriormente, neste ponto o escandâlo da Áustria já havia acontecido, e era claro para todos que com Schumacher ainda na equipe, não haveriam alegrias para o segundo piloto. Após o Grande Prêmio da Alemanha em 2006, vencido pelo alemão com ajuda do brasileiro, Lívio Oricchio exalta: “Massa renuncia à primeira vitória”.

Trecho da reportagem “Schumacher, do azarão ao favorito” - Acervo Estadão: Página 49 da edição de 31 de julho de 2006
O Estadão, talvez decepcionado por suas tentativas frustradas de colocar Rubinho como o sucessor de Senna, não repete o mesmo com Massa. De acordo com Helal, a proeza heróica só pode ser reconhecida e cultuada quando “testemunhada, legitimada e acompanhada por uma série de pessoas e de dados levantados”. A mídia, portanto, faz do espectador testemunha, e um instrumento desta legitimação.

Reportagem sobre o GP do Brasil de 2007, destacando a “frustração” de Massa por não vencer a corrida - Acervo Estadão: Página 44 da edição de 22 de outubro de 2007
Desta forma, descarta-se esta opção para Massa. O anti-herói, como o próprio Estadão descreveu, é aquele “sem os dotes normalmente atribuídos ao heroísmo e que, no entanto, atrai torcida justamente por isso”. Ao analisar as reportagens do jornal que citam o piloto, no entanto, também é possível abandonar esta alternativa.
Mesmo nos anos em que Massa disputou ativamente o campeonato mundial de pilotos, o Estadão mantém uma linguagem neutra em relação ao brasileiro, deixando de “declarar torcida” como havia feito previamente com Rubinho e Senna. Em antecipação ao Grande Prêmio do Brasil de 2008, última etapa do campeonato, que viria a decidir em favor de Lewis Hamilton por um ponto, o Estadão publicou a seguinte matéria:

Página da editoria de esportes do Estadão “Afinal, quem é o melhor?” - Acervo Estadão: Página 193 da edição de 02 de novembro de 2008
Na mesma edição, Livio Oricchio destaca os erros tanto de Hamilton quanto de Massa na temporada. A possibilidade de um brasileiro voltar a ser campeão na Fórmula 1 depois de dezessete anos foi reportada sem nenhum entusiasmo, chegando a ser mencionada mais de cem páginas depois por Tutty Vasques, dentro de uma reportagem sobre a eleição presidencial americana, como um “milagre”:
"O brasileiro - quem diria! acha até graça da pobreza tecnológica das eleições americanas. Pode mesmo se orgulhar, neste particular, da terra em que nasceu. Ainda que hoje à tarde Deus não dê provas de sua nacionalidade no autódromo de Interlagos, onde a pátria de capacete espera por um milagre no caminho de Felipe Massa, teremos motivos de sobra para entrar a semana com a cabeça erguida: o vexame americano carimba o Brasil como o país da urna eletrônica. Não é pouca coisa!"
- Tutty, Estadão, 2008.

Reportagem de Livio Oricchio “Uma temporada repleta de erros” - Acervo Estadão: Página 188 da edição de 02 de novembro de 2008
A palavra “erros”, inclusive, é talvez a principal utilizada pelo jornal ao longo de 2008 para descrever a temporada de Felipe Massa e a Ferrari. Até mesmo uma das vitórias do piloto chega a ser descrita como “sem erro”. Ou seja, apesar de vencer várias vezes, o erro, ou melhor, a derrota, é o que fica marcado para o piloto.

Menção a vitória de Massa no GP do Bahrein em 2008 na editoria esportiva do Estadão - Acervo Estadão: Página 49 da edição de 07 de abril de 2008

Menção a vitória de Massa no GP do Bahrein em 2008 na editoria esportiva do Estadão - Acervo Estadão: Página 49 da edição de 07 de abril de 2008
Para Fábio Vasconcelos, se o herói é o vitorioso, o perdedor só pode ser o antagonista. Aquele em que a culpa pela falta de sucesso é depositada, e cujos triunfos antes e depois da derrota pouco importam. Esta procura por um “culpado” ocorre pelo interesse do público no fracasso.
Segundo o autor, a mídia é responsável por construir, destruir, renovar e acabar com a imagem dos heróis e vilões, mas sem eles, a narrativa perde sua dramaticidade. Um deslize em uma competição pode tornar-se um erro fatal, e as narrativas da derrota são repletas de um imaginário além do resultado (VASCONCELOS, 2017). Portanto, classificamos Felipe Massa como o antagonista.