O Herói e a Imprensa
Joseph Campbell conceitualiza em “O Herói de Mil Faces”, que o herói é aquele que “conseguiu vencer suas limitações históricas pessoais e locais e alcançou formas normalmente válidas, humanas”. Seria ele então um personagem com dons “excepcionais”, que por vezes é adorado pela sociedade em que habita, e em outras, é “objeto de desdém”.
O mito contemporâneo, de acordo com Roland Barthes no livro “Roland Barthes por Roland Barthes”, deixa de ser uma grande narrativa que permanece por um longo período, e passa a ser algo constantemente renovado. Para o autor, mitos nascem e desaparecem todos os dias, tornando assim possível, que qualquer um seja elevado a uma figura mística.
Entretanto, como afirma Ronaldo Helal em “Cultura e Idolatria: Ilusão, Consumo e Fantasia”, se todos somos heróis, não haveriam heróis. Assim como estuda Campbell, Helal afirma que é a singularidade o que torna o herói diferente dos demais. Para o autor, nos tempos atuais, a construção desta figura é feita através de uma “midiatização” dos fatos e acontecimentos, em um acordo comum com o público, e “ancorada no carisma do ídolo em foco”. Assim, é necessário que mídia, herói e público estejam em sintonia.
O herói esportivo da narrativa midiática segue a mesma lógica daquele de Campbell na Jornada do Herói. Os atletas com resultados positivos, ou grandes diferenciais, tornam-se potenciais heróis. Desta forma, eles acabam valorizando o significado da vitória para a sociedade em que fazem parte (VASCONCELOS, 2017).
A imprensa, de tal forma, torna-se responsável por construir os discursos do esporte, ao passo que orquestra falas que acabam sendo reproduzidas pelos sujeitos do meio (ECO, 1984). Todavia, a cobertura esportiva é realizada de acordo com as regras do próprio jornalismo, como a entrevista, reportagem, redação e diagramação, em conjunto com características e fatores do campo esportivo (ERBOLATO, 1981).
Ademais, o jornalismo esportivo não se limita ao campo da competição, também representando aspectos econômicos, políticos e culturais, de acordo com uma estratégia específica da qual o jornal procura elaborar. O espaço jornalístico torna-se então, um “mundo polifônico”, com a presença de vozes de diversos campos de saber (BORELLI, 2002).
A mídia, no entanto, não cria por si só o herói. Ela apenas reproduz acontecimentos e falas - e no caso da imprensa esportiva - atribui notas de desempenho e chega a eleger os melhores e os piores, o que pode ter papel fundamental no imaginário social, e ajuda a sustentar e até desmistificar a figura de um ídolo (BORELLI, 2001).
Isto pode ser observado na imagem a seguir. O trecho faz parte de uma página esportiva do Jornal do Brasil, de 1985, onde o repórter Sergio Rodrigues compara Nelson Piquet, na época, bi-campeão da Fórmula 1, com Ayrton Senna, em seu segundo ano na categoria e recém chegado à equipe Lotus. Rodrigues dedica uma seção inteira a Senna, e afirma: “As atenções, cansadas do mau humor de Nelson Piquet, voltaram-se em peso para o garoto-prodígio”.

Trecho da página 22 da edição 00313 de 1985 do Jornal dos Sports - Fonte: Hemeroteca Digital Brasileira / Biblioteca Nacional